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“O vento que arrasa” de Selva Almada

Quem tem na paixão pela literatura um hobby que rapidamente se transforma numa forma de vida, pode ter a tentação de criar categorias onde encaixar os livros. Imaginemos que uma dessas categorias fosse “suspensão”. Então, definitivamente, O vento que arrasa (D. Quixote, 2026), da argentina Selva Almada, aí assentaria como uma luva.

Falamos de um romance, vencedor do First Book Award (Festival Internacional do Livro de Edimburgo), que embora breve, tem a audácia de tornar um episódio aparentemente banal num exercício de tensão contida, onde o essencial acontece nos gestos mínimos, nos silêncios e naquilo que nunca é dito.

Agora, saltando do território da imaginação para as páginas deste livro, pensemos numa narrativa que se inicia com um contratempo: o carro do reverendo Pearson avaria numa estrada remota do interior argentino. Acompanhado pela filha, Leni, vê-se obrigado a parar numa oficina isolada, onde vivem Gringo Brauer e o jovem Tapioca. Este encontro casual, quase suspenso no tempo entre carros desmantelados e sucata agrícola, torna-se o centro de toda a história.

Enquanto aguardam a reparação, instala-se uma convivência forçada entre quatro personagens profundamente distintas, polos de diferentes latitudes. O calor intenso, o pó e a lentidão do dia criam uma atmosfera densa, atravessada pela aproximação de uma tempestade que nunca é apenas meteorológica. O vento, que dá nome ao livro e se anuncia, ecoa as tensões que começam a emergir entre aqueles corpos e crenças.

Sem dar conta, Pearson assume rapidamente o papel de agente de transformação. Movido por uma fé absoluta, vê em Tapioca uma alma a resgatar e tenta aproximá-lo da sua visão do mundo, sugerindo-lhe uma vida diferente, guiada pela religião. Este gesto, apresentado como salvação, carrega também uma dimensão de imposição, tornando-se um dos eixos mais subtis da narrativa.

Do seu canto, Leni observa este movimento com ambiguidade. A sua relação com o pai e com a fé revela-se menos sólida, mais permeável à dúvida. E o contacto com Tapioca desperta nela uma nova inquietação, que mistura desejo e curiosidade. Entre ambos desenvolve-se uma ligação silenciosa, quase invisível, que contrasta com o discurso insistente do reverendo.

Dentro do mesmo cenário, Gringo Brauer surge como uma presença firme e contida. Desconfiado e marcado por uma vida dura, resiste à influência de Pearson e observa com reserva a aproximação a Tapioca. A tensão entre os dois homens nunca se traduz em confronto aberto, mas percorre toda a narrativa, sustentada por silêncios carregados de significado.

O auge desse conflito, e um dos momentos mais marcantes do livro, surge quando Pearson sugere que Tapioca parta com ele. A proposta, aparentemente libertadora, revela-se também disruptiva, ameaçando o equilíbrio daquele espaço. A reação do jovem, hesitante, interior, nunca totalmente explícita, condensa a delicadeza com que Almada constrói as personagens, mistas de dúvidas, sensibilidade e aventura.

A escrita da autora destaca-se pela precisão e pela força sensorial. A paisagem, o calor, o pó, e, claro, o vento, torna-se uma extensão do estado emocional das personagens, conferindo ao texto uma dimensão quase física. Tudo contribui para um ambiente de superação, onde a tempestade funciona como metáfora das transformações em curso.

O vento que arrasa recusa soluções evidentes, convidando à reflexão, enquanto assenta a prosa na sobriedade, na contenção, no não dito e nas escolhas implícitas. Pegado nesse puzzle, Selva Almada constrói uma narrativa breve, mas profundamente ressonante, onde o encontro entre mundos distintos revela tanto sobre os outros como sobre aquilo que permanece irreconciliável em cada um.

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