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“A educação física” de Rosario Villajos

Distinguido com o Prémio Biblioteca Breve, A educação física (D. Quixote, 2026), de Rosario Villajos, é um romance em forma de exercício de constante formação que se constrói a partir de uma experiência profundamente física, tendo o corpo como território de vários conflitos que põem em causa a própria identidade, elevando a vulnerabilidade.

A protagonista da narrativa, Catalina, é uma adolescente de 16 anos que, após um episódio perturbador na casa da sua amiga Silvia, mais especificamente com o pai desta, se vê na obrigação de regressar sozinha a casa, optando por pedir boleia numa estrada periférica para não ter de justificar a ninguém o motivo da saída apressada.

Esta premissa abre espaço a uma tensão constante, onde o perigo não é apenas externo, mas estrutural, estando como que tatuado na pele de Catalina, uma jovem que, entre muitas outras questões, não habita pacificamente com o seu corpo e o mundo, e, principalmente, com as transformações de ambos.

Sob o cenário da década de 1990, A educação física funciona como retrato geracional de quem, tal como este vosso escriba, passou inúmeras horas da sua vida auditiva dedicadas a gente ilustre como Pixies, Beck, Soundgarden e Nirvana, estes últimos os preferidos de Catalina que se enamorou pela fragilidade de canções como “Polly”, do álbum Nevermind.

Talvez associado a esse lado mais rebelde das guitarras, Catalina está em constante confronto consigo, centrando a sua revolta no corpo feminino, no seu corpo, olhado por rapazes e raparigas, em especial por ser uma jovem muito alta e com um busto generoso.

Apesar disso, a escrita de Villajos não se limita a tematizar a adolescência, ousando interrogar como o corpo é construído socialmente, seja isso objeto de controlo, de desejo e/ou de medo. E todas essas questões assaltam a protagonista, fazendo-a viver numa permanente tensão entre curiosidade e ameaça, entre descoberta e culpa, numa ambivalência que atravessa todas as mais de 230 páginas da narrativa.

Essa exploração da identidade “através do corpo”, fazendo dele o espaço onde se jogam as relações de poder e os conflitos sociais, leva Catalina a lidar com olhares incomodativos ou até mesmo com a dificuldade da sua recusa em ter uma relação íntima. Além disso, paradoxalmente, a obra evidencia a ausência de uma verdadeira educação sexual e emocional, deixando a personagem entregue a um processo de aprendizagem solitário e fragmentado.

E da fragmentação à sobriedade e tensão vai o “pequeno” passo de uma escrita que recusa o uso de muitos travessões, ainda que mantenha diálogos permanentes enquanto as linhas se somam com mais ou menos contenção.

Essa opção e ambiente transporta o leitor para uma história sóbria e capaz de construir intensidade(s) sem recorrer a excessos. Trata-se de uma economia expressiva que contribui para a criação de uma atmosfera de inquietação crescente, em que o suspense e a dúvida se constroem tanto pela ação como pela interioridade da protagonista que parece seguir um episódio concreto que bifurca através da memória, de referências culturais e de desconfortáveis reflexões que cruzam passado e presente, enquanto mete o dedo na ferida, no caso o debate contemporâneo sobre consentimento, violência e género, ou ainda sobre a natural vulnerabilidade juvenil no feminino.

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