“As meninas do laranjal”, de Gabriela Cabezón Cámara
Conhecida pela clareza e acutilância de opiniões enquanto intelectual, ativista, feminista e jornalista, a argentina Gabriela Cabezón Cámara tem feito da escrita de livros uma forma de sublinhar o que defende e acredita, usando a linguagem poética ao serviço das suas histórias.
Tal valeu-lhe o reconhecimento da crítica, e, logo ao primeiro romance, La virgen Cabeza, logrou um merecido aplauso, que viria a ser sublinhado com a nomeação para finalista do International Booker Prize e do Prix Médicis após o lançamento de Las aventuras de la china iron, de 2017.
No recentemente editado As meninas do laranjal (Elsinore, 2026), Gabriela Cabezón Cámara aposta na reescrita histórica enquanto gesto radical de invenção. Inspirado na figura de Catalina de Erauso, aqui reinventada como Antonio de Erauso, o romance acompanha uma protagonista que foge do convento ainda jovem e assume uma identidade masculina para sobreviver num mundo violento, atravessando territórios da América do Sul no contexto da colonização espanhola.
Essa travessia é tudo menos linear. Entre combates, deslocações constantes e episódios de grande dureza, Antonio constrói uma existência errante, marcada pela necessidade de adaptação e pela recusa de qualquer identidade fixa.
É neste percurso que se cruzam duas meninas indígenas (simbolicamente, La Niña e La Negra, aka Mitãkuña e Michi), também elas vítimas da violência colonial, que passam a acompanhá-lo. A relação que se estabelece entre os três, edificada por cumplicidade, estranheza e aprendizagem mútua, torna-se o verdadeiro eixo da narrativa, desenhando uma forma alternativa de comunidade, fora das estruturas impostas.

O texto, assumidamente queer, surge como uma longa carta dirigida a uma tia na clausura, mas, em vez de servir de organizar o relato, fragmenta-o. Nesse trajeto, as vozes das duas meninas irrompem constantemente, interrompendo e questionando a narrativa de Antonio, desmontando certezas e expondo as contradições do olhar colonial.
Um dos aspetos mais marcantes do livro é o trabalho sobre a linguagem. A escrita de Cabezón Cámara é intensa, física, por vezes quase selvagem. E ao misturar registos, do espanhol arcaico ao contemporâneo, cruzando-se com línguas indígenas como o guarani, cria um ambiente de deslocamento contínuo. O resultado é uma fusão estilística que traduz o choque entre culturas e desafia a ideia de uma história única.
Também a própria construção narrativa recusa uma progressão convencional. Em vez de seguir a cronologia de acontecimentos, vai construindo espaços de tensão entre opostos, do colonizador e colonizado, masculino e feminino, humano e animal. Nesse cenário, a selva está omnipresente, é uma entidade viva que envolve e transforma quem a ousa atravessar.
Paralelamente, As meninas do laranjal são uma crítica incisiva ao colonialismo, às suas violências, mas também às normas de género e às identidades rígidas. Antonio de Erauso, em permanente deslocação entre papéis e pertenças, encarna essa instabilidade, enquanto as meninas indígenas, donas de uma vincada ingenuidade, introduzem outras formas de ver e habitar o mundo.
Quando terminamos a leitura, fica a sensação de ter nas mãos um romance exigente e singular, que combina brutalidade e lirismo, enquanto revisita um passado que Gabriela Cabezón Cámara reimagina, criando assim uma narrativa que desestabiliza e reafirma a vitalidade de uma literatura profundamente contemporânea.